Por que o TEAjudo é feito assim
Cada parte do app segue uma prática usada por fonoaudiólogos e terapeutas. Aqui está qual, o que a pesquisa diz e onde ler mais.
Antes de tudo
O TEAjudo apoia a comunicação e o dia a dia da família. Ele não faz diagnóstico, não é tratamento e não substitui o acompanhamento de fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais, psicólogos e médicos. As práticas abaixo funcionam melhor quando um profissional ajuda a escolher o que faz sentido para cada criança.
De onde vêm as práticas
Em 2020, um grupo de pesquisadores da Universidade da Carolina do Norte (o NCAEP) revisou estudos sobre intervenções para crianças, adolescentes e jovens autistas publicados de 1990 a 2017 e listou 28 práticas com evidência suficiente para serem chamadas de "baseadas em evidência". O artigo que resume essa revisão é Hume et al. (2021).
Várias partes do TEAjudo seguem práticas dessa lista: Comunicação Aumentativa e Alternativa, apoios visuais, narrativas sociais, modelagem e intervenção feita pelos pais. Estar na lista quer dizer que a prática tem estudos a favor, não que qualquer aplicativo que a use funcione do mesmo jeito. O TEAjudo em si não foi testado em pesquisa.
Comunicação Alternativa (a prancha)
A Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA) é tudo o que ajuda uma pessoa a se comunicar além da fala: gestos, figuras, pranchas, aplicativos que falam. No TEAjudo, a criança toca num botão e o Tuti fala a frase em voz alta.
Usar prancha atrapalha a criança a começar a falar? Essa é a dúvida mais comum, e é tratada como mito na literatura da área (Romski e Sevcik, 2005). Uma revisão de estudos com pessoas com deficiências do desenvolvimento (Millar, Light e Schlosser, 2006) analisou os casos com melhor controle experimental: em nenhum a fala diminuiu depois da CAA e, na maioria, ela aumentou, embora pouco. Ou seja, a prancha não "tira o lugar" da fala.
No app: a prancha com voz, os pictogramas, as pranchas prontas por situação e a tira de frase, que junta palavras ("Eu quero água").
Os adultos também usam a prancha
Modelagem é mostrar como se faz: o adulto toca no botão enquanto fala com a criança ("vamos comer?"). A criança vê a prancha sendo usada de verdade antes de ter que usar sozinha. Modelagem e intervenção feita pelos pais estão na lista do NCAEP (Hume et al., 2021).
No app: as missões da primeira semana pedem para tocar nos botões junto com a criança, e a área dos pais mostra o que ela está usando para a família reforçar no dia a dia.
As cores por tipo de palavra
Edith Fitzgerald, professora surda norte-americana, criou um sistema para ensinar crianças surdas a montar frases, organizando as palavras pelo papel que têm na frase (quem, faz o quê, o quê). Pranchas de comunicação adaptaram a ideia dando uma cor a cada tipo de palavra, a chamada Chave de Fitzgerald modificada.
É uma convenção de organização, não um tratamento: a vantagem é a consistência. Com o tempo, a criança encontra a palavra pela cor antes mesmo de ler. No TEAjudo, ações são verdes, pessoas amarelas, comida e objetos laranja, sentimentos azuis, perguntas roxas e social rosa. Cada família pode mudar a cor de um botão.
Rotina visual e quadro "primeiro, depois"
Apoios visuais (figuras que mostram o que vai acontecer, em que ordem) estão entre as práticas da lista do NCAEP. Uma revisão de 31 estudos concluiu que a agenda visual de atividades pode ser considerada prática baseada em evidência para pessoas autistas, principalmente quando usada junto com um ensino sistemático, com o adulto guiando e reforçando (Knight, Sartini e Spriggs, 2015).
Há uma ressalva honesta: uma revisão de 2025 olhou só para as transições (trocar de atividade) e não encontrou evidência suficiente de que a agenda visual, sozinha, melhore as transições; nos estudos ela quase sempre vinha junto de outras estratégias (Mouzakes e Thompson, 2025). Por isso a rotina do TEAjudo foi pensada para ser usada com um adulto por perto, que elogia e ajuda, e não como solução isolada.
No app: a rotina do dia com figuras e prêmio por dias seguidos, e o quadro "primeiro, depois" com timer visual (um disco que vai diminuindo, para a criança ver o tempo passar sem precisar ler as horas).
Histórias sociais
As histórias sociais foram criadas por Carol Gray no começo dos anos 1990: textos curtos, em primeira pessoa e com tom positivo, que contam o que vai acontecer numa situação ou como lidar com um sentimento. Narrativas sociais estão na lista do NCAEP (Hume et al., 2021).
No app: quatro histórias prontas (médico, cabeleireiro, escola e "quando fico bravo"), lidas pelo Tuti, e a opção de a família escrever as suas. "Social Stories" é marca de Carol Gray; as histórias do TEAjudo seguem a ideia, mas não são certificadas por ela.
A ordem dos jogos de associação
O VB-MAPP (Sundberg, 2008) é um instrumento de avaliação e planejamento usado por terapeutas, que organiza habilidades em marcos de desenvolvimento. Um dos domínios é o de percepção visual e emparelhamento (ligar coisas que combinam).
O jogo "Ligar os itens" segue uma progressão parecida: primeiro coisas iguais, depois coisas da mesma categoria, depois coisas que se relacionam pelo uso (escova e dente). O jogo é prática, não avaliação: ele não mede o desenvolvimento da criança.
O botão "Estou sentindo…"
É um apoio visual para a criança mostrar como está (rostos e cores) e escolher o que ajuda a se acalmar, como respirar, contar até dez ou pedir um abraço. As estratégias são escolhidas pela família, de preferência com orientação do terapeuta que acompanha a criança. O registro do que a criança apontou aparece para os pais e no relatório, como comunicação, nunca como avaliação.
Referências
- Hume, K., Steinbrenner, J. R., Odom, S. L. et al. (2021). Evidence-based practices for children, youth, and young adults with autism: Third generation review. Journal of Autism and Developmental Disorders, 51, 4013–4032. doi.org/10.1007/s10803-020-04844-2
- Romski, M. A. e Sevcik, R. A. (2005). Augmentative communication and early intervention: Myths and realities. Infants & Young Children, 18(3), 174–185.
- Millar, D. C., Light, J. C. e Schlosser, R. W. (2006). The impact of augmentative and alternative communication intervention on the speech production of individuals with developmental disabilities: A research review. Journal of Speech, Language, and Hearing Research, 49(2), 248–264. doi.org/10.1044/1092-4388(2006/021)
- Knight, V., Sartini, E. e Spriggs, A. D. (2015). Evaluating visual activity schedules as evidence-based practice for individuals with autism spectrum disorders. Journal of Autism and Developmental Disorders, 45(1), 157–178.
- Mouzakes, T. N. e Thompson, R. H. (2025). A closer examination of the visual schedule component of interventions to improve transitions. Behavioral Interventions. doi.org/10.1002/bin.70028
- Gray, C. Social Stories™ — site oficial da autora: carolgraysocialstories.com. "Social Stories" é marca registrada de Carol Gray.
- Fitzgerald, E. Straight Language for the Deaf: a system of instruction for deaf children. Washington, D.C.: Volta Bureau. Biografia da autora no Dictionary of Virginia Biography.
- Sundberg, M. L. (2008). VB-MAPP: Verbal Behavior Milestones Assessment and Placement Program. Concord, CA: AVB Press.
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